E mesmo
tentando esconder-se daquele, algo ainda lhe trairia em sua áurea de mistério.
Os olhares se intercruzavam cada dia mais fortes, e como se não fosse
previsivelmente premeditado, aquele de sempre acenava com a mão. Logo ao cair
da tarde percebeu a astúcia deste ao acenar na varanda, incessantemente,
buscando ser notado. Mesmo sem compreender, sorriu. Percebeu o quanto dela o
despertou em seu incestuoso olhar. Ao cair da noite, enfeitou-se. Adicionou
todos os artefatos que poderiam causar maior impressão naquele desconhecido.
Não poderia esquecer as pulseiras, e o perfume que anunciara a chegada ao seu
destino, do qual ela tinha tanto medo. Ao atravessar a rua percebera as luzes
apagadas, e as janelas devidamente fechadas de alguém cuidadoso que se
importava em fechar as cortinas, resguardando a profunda intimidade de seu
aconchego. De alguém preocupado em não deixar frestas e pistas que pudesse
levar a outro alguém a desvendar tão profundo segredo que até então nem ele
mesmo saberia dizer se era importante, ou não. Mas que era segredo. Logo então
tal moça percebera o quanto enigmático poderia ser aquele estranho, e que
enganara-se: não era o perfume, nem as pulseiras, nem ao menos seu olhar
caprichoso a procura de um alguém que pudesse olhar e olhar, ao menos
ensaiar olhares de desejo e fascinação que o atraíra. Talvez não fosse nada
disso que pensasse tal estranho, que achou graça em moça tão decidamente
perturbadora, e tão premeditadamente sedutora. Nada talvez chamasse atenção
naquela, que ao passar na passarela ensejava olhares de cortejo
e admiração. Mas o que faria parar tal estranho? Buscando-a na janela, sempre,
e sempre; acenando, correspondendo a tal olhar de desejo e
sedução. Talvez achasse graça na rua e na viela, onde tal moça
poderia ensaiar, com uma ponte de emoção, com afeto e sem afago, o também e
triste ensaio de sua solidão.